Unegro escreve texto sobre aniversário da cidade e relata história dos indígenas e povos negros

Por REDAÇÃO 04/12/2020 às 09:43

A cidade de Santa Bárbara completa hoje (4), 202 anos de fundação. É conhecida nacionalmente e também mundialmente, como o lugar de tradição do arado e da imigração confederada estadunidense. Mas, o que a população desconhece é que a cidade teve forte presença indígena em um dos seus bairros mais antigo – bairro Cauby - inclusive com artefatos (pedaços de flechas, líticos) encontrados num sítio arqueológico no ano de 1970, mais precisamente na região do bairro Cruzeiro do Sul e da antiga e demolida Estação Caiuby.

 

Essas histórias estão apagadas ou são “trajetórias desconsideradas” da memória barbarense. Ao pesquisarmos a trajetória dos negros nas terras de Dona Margarida da Graça Martins, fundadora da cidade, encontramos vestígios dos primeiros habitantes da região – os indígenas. Constatou-se a seletividade da história oficial, característica da maioria das cidades brasileiras. Pois as memórias preservadas são dos seus moradores mais “ilustres”, proprietários de terras, elite política, são esses segmentos da sociedade que dão nome aos logradouros e são homenageados em museus, nos bustos e praças da cidade.

 

Assim como a maioria das cidades brasileiras, Santa Bárbara d’ Oeste também não registrou nos anais da sua história a contribuição dos seus moradores e fundadores mais longínquos – os indígenas e os negros. Ao pesquisar sobre a história dos negros em Santa Bárbara, achamos também uma pista de artefatos arqueológicos dos povos indígenas. Santa Bárbara está entre as cidades que tiveram sítios arqueológicos catalogados e registrados oficialmente em um mapa do Estado de São Paulo.

 

Historicamente, a cidade registra um grande feito de ter uma mulher fundadora nos idos do século XIX. Certamente um grande feito, há que se considerar num universo e num tempo histórico no qual o domínio do patriarcado era predominante. Ser mulher, administradora, proprietária de terras e de negros escravizados foi um feito inusitado para a época. Mas, nestas mesmas terras, também houve a presença dos primeiros habitantes do Brasil. Ao pesquisar sobre a trajetória dos negros, nos deparamos com a edição do Jornal Diário de SBO (Domingo, 22 de março de 1992) que reforça o que havíamos encontrado no mapa arqueológico do Estado de São Paulo: a cidade de Santa Bárbara d’ Oeste tem registros de sítios arqueológicos.

 

Segundo a mesma reportagem, em um dos bairros mais antigo de Santa Bárbara, foram encontradas pontas de flechas, panela e até um provável cemitério indígena, esses achados foram feitos no bairro Caiuby. A região de Santa Bárbara, onde se localiza o bairro Caiuby, conhecido anteriormente por “Bairro dos Barbosa” nos anos de 1940 foi palco de um achado histórico pela família Angolini, sendo que atualmente Antonio Carlos Angolini é um memorialista e pesquisador no CEDOC da cidade de Santa Bárbara d’Oeste.

 

Segundo o jornal Diário da mesma cidade, a família teria encontrado vários objetos indígenas quando realizava a extração de areia. Nos anos de 1970, período de loteamento do bairro Cruzeiro do Sul foram encontradas também pontas de flechas esculpidas em pedra, potes e pedaços de objetos feitos de barro. Mas, a pergunta que se faz na atualidade é de quem eram esses artefatos encontrados? qual o período que viveram e onde estão esses objetos? Numa série de reportagens feitas pelo Jornal Diário foram encontradas várias informações que atestam que o grande divulgador desse achado foi o Padre Scafuza (pesquisador que residiu por alguns anos no Asilo São Vicente de Paulo – nos idos dos anos de 1980). O Padre divulgou material encontrado na região e encaminhou material encontrado para o MAE – Museu Arqueológico e Etnológico da USP na década de 1980.

 

O “sítio arqueológico de Índios” não prosperou e na atualidade quase não se fala mais dos primeiros habitantes do bairro Caiuby, assim como a história dos negros, guarda-se apenas uma pálida imagem desses ilustres moradores. É como se eles não tivessem existido... Por isso, empreendemos uma pesquisa já de vários anos que resultará em um livro que contará a trajetória de um importante líder negro da cidade: “Benedito Samuel Barbosa – Dito Preto – Uma trajetória de luta e de formação para a cultura afro-brasileira na cidade de SBO – Nossos passos vem de longe”. Esta pesquisa consiste em reconstruir a história e memória de um dos principais nomes da cultura afrobrasileira na cidade de Santa Bárbara d’ Oeste, conhecido e atuante –“ Seu Dito Preto”.

 

"Seu Dito Preto" - Benedito Samuel Barbosa


O projeto é de natureza histórica e tem por objetivo dar visibilidade e difundir a trajetória do povo negro que aqui esteve e que está e, sobretudo, ressaltar o reconhecimento e a importância dos antepassados negros que deixaram um legado que muito precisa ser conhecido por toda a sociedade barbarense, por meio da trajetória de um dos seus moradores mais ilustres.

 

Ressaltamos ainda, que a contribuição desse projeto almeja chegar em todos os espaços de cultura e de educação da esfera municipal para que nossas crianças e jovens conheçam a história dos seus ancestrais negros e tenham a noção de pertencimento e de sua construção da identidade étnico-racial, possibilitando que todos tenham uma visão positiva da cultura milenar, do qual são herdeiros e que ainda pouco conhecem.

 

Texto escrito por Cláudia Monteiro, presidente da Unegro Santa Bárbara d’Oeste e Americana