O filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro

Por Por Antonio Salustiano Filho 27/05/2026

O clã Bolsonaro, os bolsonaristas e os bolsominions[1] estão acuados pela crise política surgida pelas revelações midiáticas sobre o pedido de Flávio Bolsonaro de R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro para o filme sobre o Bolsonaro/pai, Trata-se da cinebiografia “Dark Horse”[2] sobre o “mito”, alcunha dado a ex-presidente pelos seus admiradores e seguidores.

Eu ainda não vi trailer do referido filme que já circula por aí. Então o que escrevo aqui são apenas suposições de um “analista” distante do objeto analisado; porém, arrimado no que entendo sobre biografia não fictícia de qualquer personagem da vida pública de uma nação ou de um segmento social, escrevo algo sobre o famigerado filme.

Uma cinebiografia (ou filme biográfico) é definida conceitualmente como “um gênero cinematográfico que dramatiza a história real de uma personalidade (...).” Logo, entendo que a cinebiografia de Bolsonaro deve ser fiel aos fatos que publicamente são conhecidos do ex-capitão do Exército que se tornou presidente da República. Do contrário, seria uma Fake News cinematográfica, coisa que extrapola uma cinebiografia, ou mesmo um filme de ficção.

Vamos a alguns fatos que entendemos que devam constar na cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Nos anos de 1980 do Século XX, o então capitão do Exército, Jair Bolsonaro, foi acusado de planejar atos terroristas que consistiria em explosão de bombas em unidades militares (quarteis) do Exército e na adutora de Guandu, no Rio de Janeiro. Segundo reportagem da revista Veja da época[3], o objetivo seria pressionar o comando militar por reajustes salariais, simulando esses ataques e os imputando à esquerda. A referida revista publicou croquis (desenhos) que detalhavam o posicionamento dos explosivos, os quais uma perícia da Polícia Federal atribuiu à grafia de Bolsonaro.

Jair Bolsonaro foi inicialmente condenado por um Conselho de Justificação (composto por três coronéis) em 1988, mas posteriormente o Superior Tribunal Militar (STM) o absolveu por falta de provas técnicas definitivas, permitindo que ele passasse para a reserva e continuasse com a patente de capitão.

A cinebiografia deve também mostrar a aventura parlamentar de Jair Bolsonaro que foi deputado Federal de 1991 a 2019, com baixa produção parlamentar [4]. Diz a lenda que do total de 170 proposituras, apenas duas (02) foram aprovadas. Ou seja, um mandato improdutivo.

Durante esse período parlamentar, Bolsonaro passou pelos seguistes partidos, PPR, PPB, PTB, PFL, PP, PSC e PSL. E atualmente está PL. Quem muda de partido como quem troca de roupa, prova que não em fidelidade partidária, é bandoleiro político; definido no sentido figurado como pessoa inconstante, volúvel, instável ou que "foge" de compromissos. É o famoso fora da lei, traidor ideológico do partido político, ferramenta essencial à democracia representativa no Brasil.

Durante seu período de aventureiro parlamentar, o Deputado Bolsonaro defendeu a ditadura civil/militar, a “tortura” desenvolvidas pelos militares que servia para extrair confissões e informações sobre grupos de oposição e suas atividades; defendeu os “torturadores” da ditadura militar que governou o Brasil entre 1964-1985.

Há de se considerar que no período do governo militar mais de 50 mil pessoas foram presas, mais de 20 mil passaram por sessões de torturas e 434 foram mortas e desparecidas. Destacamos no rol de mortos e desaparecidos Rubens Paiva, trazido à memória brasileira pelo filme “Ainda estou aqui”; Stuart Edgar Angel Jones, filho da estilista Zuzu Angel; Wlademir Herzog, jornalista, professor e cineasta brasileiro e tantos companheiros companheiras de lutas que se foram pelas mãos dos torturadores defendidos por Bolsonaro.

Enquanto deputado, Bolsonaro discursou que não estuprava determinada Deputada porque ela era “feia”, demonstrando sua índole misógina, comportamento baseados em crenças fundamentadas no ódio, aversão, desrespeito ou repulsa direcionados especificamente às mulheres. Votou contra a todos os projetos em favor da classe trabalhadora e os pobres do Brasil.

Enquanto presidente seu maior feito foi fazer motociatas, gastando o dinheiro público (valor total estimado entre R$ 5 milhões e R$ 8 milhões) nesses eventos particulares que de público não tinham nada, apenas eram oportunidades de Bolsonaro de exibir as fanfarrices presidenciais.

O desmonte" no governo Bolsonaro (2019-2022) refere-se ao desmantelamento intencional de políticas públicas sociais, órgãos de fiscalização e marcos regulatórios. Desmontou os órgãos do governo em favor do meio ambiente com a flexibilização de leis de proteção, desestruturação de órgãos como o IBAMA e o ICMBio e, com isso, o aumento histórico do desmatamento na Amazônia e retardou o processo de reforma-agrária. Criou o Gabinete do ódio com dinheiro público de onde disseminava as Fakes News para sua bolha.

Durantes pandemia de com COVID-19, receitou cloroquina e ivermectina para os infectados. Imitou pessoas ofegantes com falta de ar, respiração curta e desconforto respiratório nos leitos de morte dos hospitais na fase terminal sendo ceifado pela Covid-19. Disse que não era coveiro para se preocupar com as mortes de tantos infectados pelo maldito coronavírus. Foi responsável pela morte de 700 mil seres humanos por COVID-19.

Desacreditou das urnas eletrônicas e tentou melar o processo eleitoral. Perdeu as eleições, permitiu a ocupação antidemocrática nas frentes dos Quarteis de pessoas que rezavam para pneus, invocava ETs com celulares ligados na cabeças; envolveu militares multidões e tentou dar um golpe contra a democracia do Brasil. Foi condenado e preso.

Será que tudo isso e muitas outras episódios da vida pregressa de Bolsonaro vão estar na cinebiografia “mito”? Se não estiver, trata-se de mais uma Fake News, agora na categoria cinematográfica para cultivar ideologicamente o “gado”, nome dado aos seus seguidores: gente sem apreço à democracia e ao Estado Democrático de Direito. Pessoas que recentemente beberam detergente em defesa de uma empresa que produziu o referido produto contaminado, mas era digna de defesa pela generosa contribuição financeira à campanha eleitoral de Bolsonaro.  

A última do clã é a ligação com o banqueiro bandido que jogou dinheiro público (dinheiro dos Fundos de Pensão e Previdência de funcionários públicos estaduais e municipais) na produção da cinebiografia do ex-presidente. 

Esperamos que o pouco que atos e atitudes do ex-capitão sejam retratados no filme “Dark Horse”. Porque se assim for, e o filme for um sucesso de bilheteria (o gado vai em peso) teremos, com certeza, a indicação para o “Oscar” de 2027. Aí Jair Bolsonaro será eternizado como “mito”. Santo para uns, Demônio para outros. É esperar para ver!



[1] O termo "bolsominion" é um apelido político pejorativo usado para descrever os apoiadores mais radicais e fervorosos do ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. A palavra é uma fusão do sobrenome "Bolsonaro" com "minion" (termo em inglês para servo ou lacaio, e também uma referência aos personagens da animação Meu Malvado Favorito)

[2] A tradução literal de “Dark Horse” é "cavalo negro", mas o significado real no inglês é "concorrente inesperado" ou "azarão". A expressão é usada para descrever uma pessoa ou equipe subestimada que surpreende a todos e acaba vencendo ou se destacando muito.

[3] Revista Veja, edição de  nº 996 de outubro de 1987.

[4] “Jair Bolsonaro apresentou cerca de 170 propostas legislativas, incluindo Projetos de Lei (PL), Projetos de Lei Complementar (PLP) e Propostas de Emenda à Constituição (PEC), durante seus 27 anos como deputado federal (1991 a 2018). Desse total, dois projetos de sua autoria foram aprovados e transformados em lei.” Disponível em https://www.cut.org.br/noticias/em-27-anos-como-deputado-bolsonaro-tem-dois-projetos-aprovados-e3b2, acesso em 26/06/2026.


* ANTONIO SALUSTIANO FILHO, advogado, foi vereador, diretor do Procon-Municipal, Secretário Municipal (Controle Geral, Maio Ambiente e Governo) em Santa Bárbara d’Oeste; militantes dos Movimentos Sociais Libertários e das CEBs do Estado de São Paulo. É comentarista no Jornal da Brasil (Rádio Brasil FM 81,9)