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Quando o jornalismo coloca o dedo na ferida


    O jornalismo tem como papel mais importante fiscalizar o poder público e apontar as irregularidades cometidas. E ao cumprir essa missão, na maioria das vezes e felizmente, causa incômodo.


    Este é o caso da reportagem “Funcionários da Saúde de SP, incluindo jovens, têm prioridade em vacinação contra Covid”, produzida pelas jornalistas Patrícia Campos Mello e Patrícia Pasquini e publicada no último domingo (27) na Folha de S. Paulo.


    O incômodo advém de uma “acusação” contra o Governo de São Paulo, pois na comparação com o Governo Bolsonaro não há como não considerar muito positivo, em linhas gerais, o comportamento do governador tucano na gestão da pandemia. Entretanto, é papel da imprensa mostrar os acertos e, principalmente, os erros.


    No caso da reportagem em questão, o erro apontado é grave inclusive, pois a distribuição transparente e criteriosa de vacinas é fundamenta neste momento. E o que se aponta na reportagem é uma situação de privilégio de servidores administrativos da Secretaria Estadual da Saúde, muitos deles jovens na faixa entre 20 e 30 anos, e em alguns casos pessoas trabalhado em home office.

    

    O secretário de Saúde, Jean Gorinchteyn garante que não há ilegalidade na vacinação destes servidores, antes de idosos e pessoas com comorbidades, e talvez não haja mesmo. Agora, a avaliação do ponto de vista ético, em uma situação de tanta carência de vacinas, esta fica a critério do leitor, como deve ser.

    

    A reportagem não está na capa da Folha e não obteve grande repercussão, infelizmente. Entretanto, exemplifica exatamente o sentido do jornalismo, o de apresentar informações, sem juízo de valor, para que o leitor estabeleça seu julgamento. Produzir este tipo de jornalismo não é fácil, exige expertise, custa tempo e dinheiro. Mas é muito bom ver que a profissão ainda é exercida.

 

Paulo Roberto Botão é jornalista e mestre em Comunicação


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