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Automedicação: escolha perigosa


Atualmente intensificou-se bastante a discussão sobre o aumento da rigidez na venda de medicamentos, sobretudo de anti-inflamatórios. Isso porque, lamentavelmente, a automedicação tem se tornado cada vez mais comum, prejudicando tratamentos, agravando sintomas e piorando quadros clínicos.

Nem sempre o médico toma conhecimento dos fármacos que o paciente usou antes de chegar ao consultório e a interação medicamentosa possui consequências que podem ser perigosas.

O Brasil é um dos países que mais consome anti-inflamatórios comercializados sem receita médica no mundo. Esses remédios são muitos úteis e eficazes quando administrados adequadamente e mediante diagnóstico preciso. Mas o que notamos é o aumento indiscriminado do uso desses medicamentos. E esse abuso pode causar, entre outras coisas, hemorragias do aparelho digestivo, diabetes, insuficiência cardíaca e piora na função renal e hipertensiva. Existem na literatura médica relatos até de óbitos ocasionados pela medicação exagerada.

Informar a população sobre os perigos atribuídos à automedicação é o primeiro passo que precisa ser dado. Portanto, uma campanha de conscientização se faz mais do que necessária. O ideal seria inserir esse assunto nos meios de comunicação, usando esses veículos como uma ferramenta a favor da saúde pública e, dessa forma, alcançar o maior número possível de pessoas.

O mais recomendável é que haja a exigência de receita médica para todos os anti-inflamatórios, e não apenas para alguns. Esse tema inclusive pautará discussões na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e estamos no aguardo de resoluções.

No entanto, não é apenas dificultando a compra do medicamento na farmácia que será sanado o problema. O desafio é muito maior. Além do viés cultural, de ensinar a população sobre a importância do parecer do médico, também deve ser garantido o fácil acesso ao atendimento, e aí já entramos no mérito da busca pela valorização do Sistema Único de Saúde.

Devido às longas esperas para marcar consultas, a pessoa acaba recorrendo aos palpites de conhecidos ou se baseando em prescrições anteriores: uma decisão que compromete seu bem estar.

Precisamos de um sistema de saúde que, na prática, seja tão eficaz quanto o SUS é na teoria. E nesse sentido não podemos deixar de considerar a falta da relação médico-paciente e a diminuição da competência profissional, fatores que muitas vezes prejudicam tanto quanto a automedicação. Quando os brasileiros tiverem de fato acesso universal e integral à assistência de qualidade, a automedicação terá enfim seus dias contados.


Antonio Carlos Lopes, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica

 

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