SBNotcias - Ano do Laicato

Ano do Laicato

11/01/2018
Autor: Pe. Geraldo Luís Boletini

 

Sou padre de uma paróquia de periferia de uma cidade do interior do estado de São Paulo. Meus paroquianos são gente muito simples e sem ostentação, é uma paróquia formada por bairros de trabalhadores. Quando assumi esta paróquia notei que tinha muita coisa para ser feito. Procurei um versículo bíblico que me ajudasse a nortear minha nova empreitada pastoral, e o Senhor me disse: "Esquecendo do que fica para trás, avanço para o que está adiante, prossigo para o alvo, para o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus em Jesus Cristo" (conf. Ef. 3, 13b, 14). Sem ficar remoendo o passado e lamentando o que não foi feito, lancei-me adiante, firmando meus passos na esperança prometida pelo Senhor.

Para prosseguir os trabalhos pastorais, tivemos que trabalhar muito. Eu pessoalmente acredito que uma comunidade paroquial deve se fundamentar nessa tríplice perspectiva pastoral: Oração, trabalho e diversão. Uma paróquia deve primeiramente orar e celebrar a fé que professa em comunidade, mas também deve ter a capacidade de sair de si, e ir ao encontro do irmão. Todos os dons que o Senhor investe em uma comunidade paroquial através da oração, deve ser transformada em serviço e missão. Uma comunidade que ora unida, trabalha unida, deve também celebrar a alegria da fraternidade e recrear-se na alegria do serviço aos irmãos, pois uma comunidade que sabe recrear juntos, mostra para o mundo a alegria da fraternidade e do serviço no anúncio do evangelho. Uma comunidade paroquial que saber recrear com os irmãos, torna-se uma comunidade sempre criativa. Esta é a dinâmica do ser comunidade: Orar, celebrar, recrear e se recriar.

A Igreja das décadas

Em uma de nossas festas, notei uma peculiaridade, as pessoas que trabalhavam na cozinha fritando pastel, frango, batatinha e faziam cuscuz, estavam na faixa dos 50 a 70 anos. A leitura que pude fazer daquela situação, é que, a Igreja de hoje, a Igreja do segundo milênio, está sendo ainda mantida pastoralmente, por aqueles que a Igreja dos anos 70, 80 e 90 formou.

Atualmente o "front pastoral", isto é, quem está na linha da frente dos trabalhos pastorais de nossas comunidades, os mais engajados e compromissados com o trabalho apostólico, são aqueles que foram formados pastoralmente pela Igreja dos anos 70 e 80 e 90, são aqueles que mais assumem os trabalhos tidos como, linha de Pastorais Social da Igreja, tais como: Pastoral da Criança, Pastoral da Saúde, vicentinos etc...

A Igreja dos anos noventa é uma igreja mais sazonal. De participação esporádica, fundamentada no entusiasmo dos grandes eventos, nas missas liturgicamente mais marcantes e temáticas, fazem-se sempre presentes e são exigentes; porém com relação ao compromisso efetivo e perseverante, há um déficit no engajamento no compromisso pastoral. Esta década foi marcada por uma certa estabilidade econômica, e gerou um tipo de católico que mais espera da Igreja do faz pela Igreja. A igreja muitas vezes vem interpretada não como servidora, mas como empregada, ou ainda, como uma despensa, quando se está com falta de alguma coisa, vai-se até lá para suprir as necessidades mais emergentes.

A Igreja do novo milênio

É a Igreja que neste ano atingiu a sua maior idade. Atualmente está com dezoito anos. É a Igreja que nasceu junto com o advento da internet, onde temos um novo divisor temporal que vai balizar um (A) antes e um (D) depois. Estamos competindo com shows, shoppings, eventos, viradas culturais, passeios e viagens frequentes. Algumas expressões de nossa fé, que eram próprios das nossas comunidades paroquiais, foram agora assumidos pelo poder público, e se tornaram verdadeiros shows comerciáveis. Exemplo disso, são as famosas encenações da Semana Santa, que geralmente eram produzidas com parcos recursos das nossas paróquias e encenadas pelos jovens da comunidade em frente à igreja. Hoje esses eventos se tornaram verdadeiros shows teatrais, rebuscados de uma parafernália de efeitos especiais e cheios de pirotecnias, sustentados por uma "Lei de Incentivo a Cultura". Esses eventos, tornaram-se espaços de livre interpretação e releitura dos genuínos acontecimentos dos eventos bíblicos, semeando muitas vezes na consciência dos seus espectadores, dúvidas e relatividade da fé diante do conteúdo encenado. Sem falar das nossas famosas e tradicionais quermesses paroquiais, que pela ganância em se pleitear um espaço no calendário de eventos das nossas cidades, foram engolidas por empresas patrocinadoras de eventos, com a promoção de artistas que muitas vezes não refletem o verdadeiro sentido da celebração daquele momento.

Frente a esses acontecimentos, a Igreja no Brasil através da CNBB, no documento 105, conclama todos os fiéis católicos, a refletirem acerca do Ano do Laicato, que teve sua abertura na Festa de Cristo Rei de 2017. O tema proposto é: "Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade - "Sal da Terra e Luz do Mundo" (Mt 5, 13-14), que tem como Objetivo Geral: Evangelizar, a partir de Jesus Cristo, na força do Espírito Santo, como Igreja discípula, missionária, profética e misericordiosa, alimentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida, rumo ao reino definitivo.

Sobre este momento que a Igreja no Brasil nos propõe, quero com esta reflexão, recordar a atitude de Jesus quando num dia de sábado, entrou numa sinagoga e encontrou uma mulher que fazia "dezoito anos" que estava enferma, encurvada sobre si mesma e não podia de modo algum endireitar-se. Vendo-a, Jesus chamou-a e disse: "Mulher, estás livre de tua doença"... No mesmo instante, ela se endireitou e glorificava a Deus" (Lc 13, 10-13).

A Igreja é feminino, ela representa esta mulher do evangelho que por dezoito anos estava encurvada sobre si mesma. O Papa Francisco, nos pede uma "Igreja em saída", e quem está encurvado sobre si mesmo não pode caminhar a passos largos quando está debruçada sobre si mesma. A Igreja no Brasil com o Ano do Laicato, tem a oportunidade de levantar a cabeça, e colocando seu olhar em Jesus, ouvir o chamado do Mestre, pois só ele tem o poder de endireitar e aprumar a coluna de uma Igreja encurvada sobre si mesma.

A Igreja no Brasil não pode continuar olhando encurvada sobre si mesma, numa perspectiva umbilical: "Se o sal perder o sabor com que salgaremos? " (Mt 5,13). A Igreja do Terceiro Milênio não pode se transformar na Igreja da terceira idade, ela já produziu o seu fruto ao seu tempo, agora é necessário que a "Igreja da Maior Idade", assuma o seu posto.

Pe. Geraldo Luís Boletini
Pároco da Paroquia Senhor Bom Jesus
Santa Bárbara D'Oeste