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Negras ao pé da letra

05/05/2017
Autor: Tais Pereira de Freitas

 

O presente artigo é fruto de tese de doutoramento e a proposta é refletir sobre o protagonismo das mulheres negras no Brasil a partir do recorte da inserção histórica dessa mulher nas práticas educativas informais no país. Para tanto, poética e filosoficamente, partimos da ideia de Sankofa. Essa expressão, um conjunto de ideogramas da escrita dos povos akan, da Africa Ocidental, pode ser entendido a partir da ideia de que nunca é tarde prá voltar e recolher/retomar o que ficou prá trás, ou que "não é tabu voltar atrás e buscar o que esqueceu." Essa filosofia implica no entendimento de que para o desenvolvimento futuro, o passado (e tudo que as vivências possibilitaram) é essencial.

A ideia de sankofa é usualmente representada por um pássaro que voa para a frente, tendo a cabeça voltada para trás, sendo que no bico carrega um ovo, o futuro; sankofa portanto, permite o entendimento de que a volta ao passado permite resignificar o presente, ou ainda, nos ensinaria a voltar as nossas raízes (passado), para realizar o nosso potencial e avançar. (Revista Sankofa, 2008, online)

Essa é a ideia que orienta esse artigo. Sankofa auxilia na discussão sobre como as trajetórias das mulheres negras africanas e brasileiras escravizadas construíram a resistência, e foram fundamentais no processo educativo informal que se desenvolve no Brasil e assim intenta contribuir para a igualdade de gênero no país.

Mulheres negras estão presentes no histórico de formação e desenvolvimento do Brasil. Mulheres negras estão ocupando cargos ditos importantes no Brasil hoje. Mulheres negras estão cotidianamente resistindo. Mulheres negras são protagonistas. Sujeitas de sua própria história. A desigualdade foi construída e, portanto, pode ser desconstruída. Como? Não se trata de respostas prontas. Não existe fórmula mágica. É construção cotidiana, articulada entre ciência (no sentido estrito da palavra), arte, cultura, história.

Para entender as formas de desconstrução da desigualdade de gênero e racial, entendemos a importância de destacar o protagonismo histórico das mulheres negras e nesse trajeto, as amas de leite e amas secas foram saindo das sombras, emergindo do retrato em que negras e resignadas acolhem ao colo felizes crianças brancas. Foram mostrando como sua ocupação teve um componente educativo, como antes de as crianças brancas terem mestres que lhes ensinaram as letras, foram colocadas sob seus cuidados, amas-de-leite, amas secas, mulheres negras.

Nesse sair das sombras das amas, a educação se redefine como um processo ampliado que contempla personagens que mesmo não estando nas escolas e colégios, foram também fundamentais para a socialização primária das crianças brasileiras.

Dentro do panorama complexo que foi o sistema escravista brasileiro, é possível afirmar que foram as mulheres negras que cuidaram e educaram primariamente os meninos e meninas brancas antes que eles entendessem o significado de serem "senhores" de terras e gentes.

Antes que fossem entregues aos "mestres" que, em colégios, igrejas ou mesmo nas casas lhe ensinariam as letras, matemáticas e ciências, essas crianças foram colocadas sob os cuidados das negras que lhes alimentaram e ensinaram as primeiras palavras, passos e canções, que lhe contaram as primeiras histórias e se dispuseram as primeiras brincadeiras da infância. Sob essa perspectiva é possível entender que essas personagens estão presentes em toda a trama da educação brasileira, mesmo que em alguns momentos sua imagem pareça desfocada. Tais mulheres foram fundamentais na forma como se estruturou o país e estiveram de alguma forma presentes nas propostas de socialização e educação praticadas no Brasil, ainda que informalmente.

A proposta de cuidado e educação dentro de casa foi levada a cabo nos primeiros séculos de Brasil principalmente pelas amas, que eram responsabilizadas por todas as tarefas em relação às crianças: alimentá-las, vesti-las, orientar-lhes as brincadeiras, enfim, cerca-las de todos os cuidados necessários ao seu desenvolvimento.

Conforme as Diretrizes Curriculares para Educação Infantil, do Ministério da Educação (BRASIL, 2010), a educação infantil é a primeira etapa da educação básica e que deve ser oferecida em creches e pré-escolas. De acordo com essa resolução, a criança é sujeito histórico e de direitos, que constrói sua identidade pessoal e coletiva através das interações e relações que vivencia. As propostas pedagógicas para a educação infantil devem respeitar princípios éticos, políticos e estéticos. Éticos, na medida da autonomia, responsabilidade, solidariedade e respeito ao bem comum; Políticos, uma vez que a educação infantil deve permitir o acesso a direitos políticos e exercício da criticidade; Estéticos, uma vez que relaciona-se com o que é ludico, com a criatividade, sensibilidade e liberdade de expressão.

Dentro desse panorama, a educação infantil constrói-se a partir de técnicas, parâmetros e indicadores, mas tem sobretudo, a responsabilidade de permitir que as crianças desenvolvam-se integralmente, e para isso, é necessário trazer também o lúdico, a imaginação, a fantasia.

Ora, o que as amas traziam? Para além do cuidado propriamente dito (alimentação, vestuário, linguagem), essas mulheres possibilitavam as crianças o crescimento intelectual, também através da fantasia e da imaginação, tão caras ao desenvolvimento infantil.

As amas foram assim fundamentais no processo de socialização primária das crianças negras e brancas no Brasil, cuidando de seu desenvolvimento, ensinando as primeiras palavras, brincadeiras e diversões, corrigindo os comportamentos, enfim, educando-os.

Gilberto Freyre, em sua obra "Casa Grande & Senzala" publicada em 1933, traz a importância dessas mulheres na formação e desenvolvimento do Brasil. Mesmo com todas as críticas (pertinentes, quase sempre) a obra do autor, é preciso olhar o que ele escreve de forma mais atenta. Ainda que Freyre afirme que os meninos brancos receberam da senzala através do contato com as amas de leite, toda a espécie de "influências ruins" (FREYRE, 2006, p437) evidencia-se em sua obra o protagonismo das amas negras na construção da educação no Brasil.

O autor vai apontar que a influência negra está presente nos costumes brasileiros, mas é interessante destacar que praticamente toda a referência a que ele faz alusão, remete a mulher negra, aparecendo a figura masculina (o moleque) apenas no fim de seus exemplos.

 

Na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo em que se deliciam nossos sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de ninar menino pequeno em tudo que é expressão sincera de vida, trazemos quase todos a marca da infuência negra. Da escrava ou sinhama que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de comer, ela própria amolengando na mão o bolão de comida. Da negra velha que nos contou as primeiras histórias de bicho e de mal-assombrado. Da mulata que nos tirou o primeiro bicho de pé de uma coceira tão boa. Da que nos iniciou no amor físico e nos transmitiu, ao ranger da cama de vento, a primeira sensação completa de homem. Do muleque que foi nosso primeiro companheiro de brinquedo. (FREYRE, 2006, p.367)

O protagonismo das mulheres negras na formação e educação nos primeiros séculos de Brasil, fica evidenciado, quando a proposta é uma leitura mais atenciosa que busca fugir das armadilhas de enxergar o relato apenas por uma ótica, como se a narrativa que perdura fosse suficiente para abarcar todas as dimensões do real. Freyre analisa a realidade a partir de sua ótica. As interpretações que realiza, são fruto de suas vivências. Mas para além do que ele interpreta, está em sua obra uma espécie de crônica dos costumes daquela época e, nessa, fica evidenciado aquilo que busca-se retomar nesse trabalho, ou seja, a presença das mulheres negras na educação dos brasileiros desde os primeiros século de Brasil.

As mulheres negras ocuparam-se de vários trabalhos durante o período escravista no Brasil, fosse no "eito" ou na casa grande, mas entre esses, o de amas-de-leite, ou amas secas pode ser destacado como aquele que possibilitou maior interação entre costumes africanos e a sociedade que se estabelecia e desenvolvia no Brasil naquele período. Dessa forma, a função desempenhada pelas amas negras no cuidado das crianças no período escravista, configura-se como trabalho, desenvolvido pela mulher negra no Brasil.

As amas foram responsáveis pela educação primária de grande parcela das crianças nascidas no Brasil durante o período em que perdurou a escravidão. Foi através desse contato direto com as crianças da casa grande que as mulheres negras foram repassando seus saberes, contribuindo sistematicamente para a sua socialização e aprendizagem da vida em sociedade. Ainda de acordo com Freyre (2006, p.414) a influência da ama negra pode ser percebida, inclusive na linguagem:

A linguagem infantil aqui também se amoleceu no contato da criança com a ama negra. Algumas palavras, ainda hoje duras ou acres quando pronunciadas pelos portugueses, se amaciaram no Brasil por influência da boca africana. (...) A ama negra fez muitas vezes com as palavras o mesmo que com a comida: machucou-as, tirou-lhes as espinhas, os ossos, as durezas, só deixando para a boca do menino branco as sílabas moles. Daí esse português de menino que no Norte do Brasil, principalmente é uma das falas mais doces deste mundo. (p.414)

Era a mulher negra, ama-de-leite ou ama seca, a responsável por ensinar as crianças brancas as primeiras palavras, os primeiros passos, os primeiros costumes, e nesse contexto, a formação cultural brasileira vai se modificando, se constituindo de maneira diferente daquela encontrada em Portugal.

Assim, antes de ser alfabetizada pelos jesuítas, fosse nos colégios ou mesmo nas lições tomadas na casa grande, a criança, em especial o menino branco (já que para as meninas a educação voltava-se quase que exclusivamente para as prendas domésticas) já havia recebido uma educação, que não a de sua família. Uma educação repleta de histórias, lendas, brincadeiras e que conforme pode ser encontrado nas propostas pedagógicas atuais, era fundamental para o desenvolvimento infantil.

Dessa forma, ser ama pode ser entendido como a primeira experiência das mulheres negras em práticas educativas informais no Brasil, uma vez que o trabalho por elas desenvolvido, vai se metamorfoseando e sendo ampliado, até que já no século XX, com a entrada maçiça das mulheres no espaço das fábricas, cresce a necessidade de um espaço para atender/cuidar das crianças.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares para Educação Infantil. Brasilia: MEC, 2010.

FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. Introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil -1. 51 ed. rev. São Paulo: Global, 2006.

REVISTA SANKOFA. O Conceito de Sankofa e a Concepção Africana de História. Apresentação da Revista de História da Africa e de Estudos da Diaspora Africana. 2008, https://sites.google.com/site/revistasankofa/Home Acesso em 29 Jul,2014

Tais Pereira de Freitas é Assistente social, mestre e doutora em Serviço Social pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho", UNESP, Câmpus de Franca, e professora adjunta na Universidade Federal do Triângulo Mineiro.