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“Eu” como centro do universo precisa de mudanças


A história passou por vários momentos diferentes que influenciaram e ainda influenciam muito o modo de vida da sociedade atual. Costumo dizer em minhas aulas que precisamos conhecer e aprender com o passado para caminharmos melhor e com menos erros.

Na Idade Média difundiu-se o teocentrismo onde Deus era o centro de tudo e, “teoricamente”, os princípios que norteavam os seres humanos eram os da humildade, respeito e abnegação frente à grandiosidade e as vontades de Deus.

Com o passar do tempo, com o renascimento (séculos XVII e XVIII), o ser humano abre sua mente, racionaliza as barreiras do conhecimento, aprimora as ciências e na dita evolução aparecem figuras importantes como Rene Descartes que por meio do cartesianismo prega o racionalismo, diminuindo o valor da alma e dos sentimentos.

Dentro desse contexto, passa a ser valorizado o antropocentrismo, onde o homem é o centro de tudo. Nessa ótica, todo o resto: coisas, outros seres e a própria natureza estão a serviço desse ser humano, detentor do conhecimento e controle.

Embora seja inegável o grande avanço das ciências, das artes e do próprio ser humano vendo a sociedade hoje com egos tão inflados e voltados para o eu egocêntrico, consumista e exteriorizado, percebemos que talvez esse antropocentrismo esteja subindo demais à cabeça.

Talvez o impacto das ideias do antropocentrismo atual esteja fazendo com que o ser humano foque suas atitudes no ter e supervalorize os “autos” da vida (suficiente, realizado, controle, eficiente etc.) confundindo-se com deuses, senhores do universo desejosos de controlar tudo e todos.

Estamos adoecendo e, não por acaso, autores como  Regina Margis e  Antônio Dias apontam que as pessoas de personalidade tipo A são mais suscetíveis a doenças cardíacas e, não coincidentemente, essas doenças são as que mais matam nos dias de hoje.

Pessoas com esse tipo de personalidade, segundo esses autores, são ambiciosas, controladoras, competitivas, impacientes, hiperativas, investem muito na profissão, são autodisciplinadas, superexigentes e parecem estar constantemente prontas para o combate e para superação, desgastando-se emocional e fisicamente.

Claro que precisamos nos desenvolver, precisamos dos “autos” (realização, eficácia, afirmação, estima etc.), mas não podemos nos desconectar do divino contido em cada ação nossa. Precisamos nos conectar ao sagrado por meio do reconhecimento do valor do próximo, da necessidade de cuidar da natureza, do reconhecimento da nossa pequenez diante do universo. Precisamos exercitar nossa espiritualidade. 

O renomado psiquiatra e psicoterapeuta Dr. Ajax Salvador, num de seus excelentes textos sobre o adoecimento da sociedade, coloca que “a noção da unidade sustenta-se agora não mais em Deus, mas na forma do eu (transcendental). Não por acaso os atributos que anteriormente eram atributos exclusivos da divindade passam a ser qualidades do “Eu” (unidade, autenticidade, independência, autonomia, autodeterminação etc.).

Eventos atuais de corrupção, números crescentes de pessoas adoecendo, constantes brigas por poder servem para nos mostrar que talvez esteja na hora de sermos mais humildes e aceitarmos que no espetáculo da vida o papel principal ainda cabe a Deus; a natureza e o próximo dividem constantemente a cena conosco.

Namastê e até a próxima!

Alessandra Cerri é sócia-diretora do Centro de Longevidade e Atualização de Piracicaba (Clap), mestre em educação física, pós-graduada em neurociência aplicada à longevidade e pós-graduanda em psicossomática. 

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